terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quase eu

Quase Eu - Margarida Marinho

Estranho tudo na maior parte das vezes : lugares que inesperadamente habito, as pessoas que os habitam,lugares a que chamamos lugares de férias, as pessoas que passam férias, as férias e tudo o mais. É sempre assim : há um tempo que estranho e outro que se lhe segue,que estranho. Muito. E preciso regressar a ela . Porque tenho saudades. Muitas. Porque ela me veste e afaga na maior parte das vezes, apesar da sua nudez.Apesar de sua mudez.

Eu gosto dela . Mesmo que mudasse de rua , de cidade. Mesmo sendo uma coisa .Que vale tanto quanto uma concha. E uma concha vale muito . Porque passa a vida a espera de água. Eu também . Ela não . Ela espera quieta e caiada. Por mim. E quando regresso, regresso a ela.


Ao seu íntimo . Que lhe dói quando lhe mexo e transformo. Pego num compasso e mudo-lhe os ângulos, quando mudo a cômoda , os sofás, trinta vezes ao ano, e até o roupeiro_ o ser mais avantajado da família , muda de paisagem umas quantas. Eu mudo-lhe a paisagem. Afinal de contas sou eu que viajo dentro dela . Eu e os meus.


Quando estou longe tenho comigo a chave, grande e prateada, que enrosco no umbigo da porta de entrada; o cheiro que se solta lá de dentro, daquelas entranhas de madeira, muita, o branco das paredes, nuas de quadros e de retratos ( sei lá porque nunca as vesti,gosto delas assim , também á espera de algo) e , finalmente, as janelas, meninas mais altas do que eu.enquadram-me bem quando vou ver quem passa . Ao todo são sete. Reparo agora:a minha casa tem muitos olhos.Que não tem pestanas. Corrijo: persianas. Nem cortinas. E isto entristece porque de fato, sem elas não vejo o vento, o ar que passa e ela inspira.


Quando subo os degraus das escadas que me elevam a outro canto da casa , adivinho a cama, a sala, o sofá e eu afundada no sofá . Descalça. Até que me levanto e toco com a planta dos pés nas palmas do chão, ora de madeira , ora de pedra. Que me aquece ou me arrepia entre a travessia dos quartos. E eu sinto-a quente ,fria ou mesmo cansada. Que ela também boceja, encolhe e braceja. Por causa do sol, da lua, e da terra, a família do meu planeta casa.Que me puxa e me agarra à pele da terra.


E foi isso que aconteceu sem eu saber como. Devagarinho tornou-se meu berço, o lugar que me centra e me endireita aos poucos, mesmo quando tombo. O lugar onde sempre é fácil cair porque o chfão também é feito de mim.

A minha casa.

Quase eu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário